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Flagrantes do Momento (1966-03-02)Data de Produção Inicial:1966-03-02Nível de Descrição:Documento simples - RecortesSuporte:PapelMenções de Responsabilidade:Costa, SeverinoFunção: Autor da publicaçãoPublicado em:Nome da publicação: Jornal - O Comércio do PortoLocal de edição: PortoÂmbito e Conteúdo:"Imagem humaníssima, silhueta digna dum pensamento enternecido - lugar-comum pungente e banal, lugar-comum tingido de tristeza e nostalgia - eis o que este velho pescador, sentado num barco varado, clama à vida que lhe fugiu nas suas alegria e na sua pujança. O corpo curvado, a mirada cansada e sem viço, que ideias, que pensamento estarão na mente deste ancião a quem o viver, mar, casa família, lutas, tristezas, alegrias, roubou todo o sentido de presença, e se deixar ficar no Mundo, assim, indiferente, apático, como um protesto vivo contra o inexorável destino da velhice inerme, desajeitada, inútil, arrumada ali para um canto, baloiçando as pernas no barco varado...
Velho lobo do mar, agora aniquilado e só. Não mais o canto da vaga na amurada do batel frágil; não mais as cúpulas e as torres da cidade, despontando por sobre a vaga, nas horas de regresso; não mais os braços retezados puxando os remos; nem os medos ao passar o «Ladrão», nem as preces sobre a onda cavada que vai engolir o batel; nem a alegria do alar da rede cheia de peixe... Nem a hora calada no fim da ceia; nem a mirada gaiata e profunda da sua moça dum dia; nem as gargalhadas fáceis... Agora, no seu mundo diminuto e restrito, ficou apenas espaço para uma malga de caldo, uma voltinha pela doca, um dia de procissão da Senhora da Agonia, a missa em S. Domingos... Nada mais. O velho pescador, com o punho do velho casaco, passa uma limpadela pelo nariz que está pingando. Curvado e solitário, no dorso daquele batel varado..."
Idioma/Escrita:PortuguêsUnidades de Descrição Relacionadas:Local:DocaFreguesia:MonserrateCódigo de Referência:PT/MVCT-AMVCT/APSS/SC/3-1/1/3/2