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Flagrantes do Momento (1966-03-18)Data de Produção Inicial:1966-03-18Nível de Descrição:Documento simples - RecortesSuporte:PapelMenções de Responsabilidade:Costa, SeverinoFunção: Autor da publicaçãoPublicado em:Nome da publicação: Jornal - O Comércio do PortoLocal de edição: PortoÂmbito e Conteúdo:"O iloto da barra é um cenobita, um marítimo. um amanuense.
É um cenobita, porque o seu longo dia o passa isolado e só na Torre de vigia. naquele 1º andar do edifício cilindrico, o piloto está vigilantre e atento. Só, procurando passar o tempo de acalmia com os recursos atuais: um jornal, uma rádio, pouco mais. A «fonia» zumbe ao lado, ouvido gigantesco estendido sobre o Atlântico, a escutar ora as vozes rotineiras dos mestres dos barcos pesqueiros, ora os chamamentos dramáticos ou as notícias dos sinistros marítimos. Com binóculos e com o seu óculo colocado sobre um cavalete, o piloto faz a sondagens visuais por sobre o mar. Em sua volta, há silêncio. O pequeno compartimento não dá para passear; a sua clausura profissional, o piloto tem de permenecer quase estático.
É marítimo, porque o mar ele deve a sua obrigação de dirigente de barcos e navios. Quantas vezes, subitamente sacudido pela pressa de uma desgraça iminente, ele tem que saltar da sua pequena «cela» para a vedeta que o espera ali em baixo, junto ao cais, sempre pronta para galgar a barra e correr ao encontro do mar bravio. Então o piloto é um homem do mar. Ele conhece-o e por isso o respeita. Muitas vezes, o nosso serviço profissional leva-nos ao convívio com estes homens: os nossos olhos, olhando o mar lá do alto da torre, nada avistam nem percebem de especial. Mas o rosto do piloto põe-se subitamente sério, ao ver a manobra de um pesqueiro que vai entrando a barra. De repente, o piloto descontrai-se e volta-se para nós, dizendo: «Já está» - e é então que ficamos a saber que o barco acabava de transpor e ladear um perigo mortal. Ele conhece a barra e o mar como ninguém. Ao longe, uma onda traiçoeira, rolando sem espuma, sem ser vista, vai enrolar o barco e perdê-lo. Ele viu-a, e fica tenso. Homem do mar, porque ali se realiza o seu trabalho. Navios que é preciso meter na doca, com a barra assoreada; um mar traiçoeiro que há que transpor, para levar socorro, ou a sua experiência, ou uma indicação urgente; um iate estrangeiro que não conhece a barra e até um homem que adoece ao largo e que tem que vir para terra.
É um amanuense, porque o piloto tem que fazer mapas e relatórios, tem que escriturar livros, dar notas estatísticas. A caneta está ali ao lado do binóculo, da fonia, da «vedeta» que espera no cais.
É manhã cedo. Nos invernos temerosos, nos dias de sol, o piloto lá vai, silencioso e só, a caminho da sua cela: cenobita, marítimo e amanuense..."
Idioma/Escrita:PortuguêsCódigo de Referência:PT/MVCT-AMVCT/APSS/SC/3-1/1/3/14