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Flagrantes do Momento (1966-03-21)Data de Produção Inicial:1966-03-21Nível de Descrição:Documento simples - RecortesSuporte:PapelMenções de Responsabilidade:Costa, SeverinoFunção: Autor da publicaçãoPublicado em:Nome da publicação: Jornal - O Comércio do PortoLocal de edição: PortoÂmbito e Conteúdo:"O Túlio, o «Fadista» e o carro.
Esta trilogia significa: Túlio, o senhor, Fadista, o servo e devoto; o carro, a «quadriga» da glória - para o cão; o símbolo da servidão, para o homem.
Quando o Túlio dá uma ordem, o servo obedece. Por vezes o Semnhor, de quem o «Fadista» é o único companheiro, quer andar só, ou sozinho tem que fazer qualquer serviço. Então, a sua voz autoritária e categórica: «Vai-te embora...» relutante o Fadista tenta demover o dono e, mal ele volta as costas, de novo o segue: «Já te disse! gira para casa» As novas tentativas do Fadista para comover o dono, esbarram contra a decisão tomada. E então o Fadista, aceita o seu destino inexorável; empreende o caminho de casa, na mais extraordinária das atitudes «humanas»: de cabeça baixa, passo lento, olhar triste, só lhe falta pôr as mãos atrás das costas, para nos dar a imagem do aluno repreendido que vai para a sala de castigo.
Mas a vida tem suas compensações e reviravoltas: normalmente o Túlio anda com o seu amigo. No carrinho em que faz carretos, o «Fadista» tem um lugar garantido. É o seu momento de glória. De pé, olhando tudo com olhar sobranceiro, o lindo cachorro tem ganas de cantar árias napolitanas. O rodado do carro, trepidando na calçada, repercute no seu coração um ritmo de triunfo. É a sua hora máxima. Carregada a mercearia, o «Fadista», mesmo assim, não perde as suas prerrogativas.
O Túlio, de vez em quando, anda doente. Vêmo-lo atravessar o «Carvalho Santo», muito devagar, sofrendo dores, entristecido pelos seus males; e então o «Fadista» é o mais extraordinário dos companheiros: põe-se ao lado do dono, com uma infinita tristeza nos olhos, e segue ao seu lado, também muito devagar, olhando para o Túlio de vez em quando, como a querer adivinhar os seus sofrimentos, com vontade de lhe dizer, se soubesse falar a língua do dono que ele entende muito bem «Vocemecê vai à rasca, não?» Não fala; mas os seu olhar é um poema de compreensão, de solicitude, de amor.
Quadro da rua, flagrante profundamente enternecedor, página anónima e sem biografia, algures, num recanto do Mundo..."
Idioma/Escrita:PortuguêsCódigo de Referência:PT/MVCT-AMVCT/APSS/SC/3-1/1/3/16