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Flagrantes do Momento (1966-04-01)Data de Produção Inicial:1966-04-01Nível de Descrição:Documento simples - RecortesSuporte:PapelMenções de Responsabilidade:Costa, SeverinoFunção: Autor da publicaçãoPublicado em:Nome da publicação: Jornal - O Comércio do PortoLocal de edição: PortoÂmbito e Conteúdo:"Por mais que nos esforcemos em preparar uma legenda alegre ou um comentário pitoresco para a nossa fotografia de hoje, não no-lo consente o profundo sentimento de compaixão que esta anciã nos suscitou, no dia em que fomos surpreender, ali no murete do Aquário do Mercado Municipal, comendo o seu frugalíssimo almoço. Criatura pobre, já vergada ao peso de anos, vestindo o traje negro das viúvas das nossas aldeias, esta pobre mulher do campo, vinda de uma aldeia, algures do nosso concelho, levantou-se de madrugada para vender umas laranjas no Mercado. Mercadoria de pequeno valor, deu-lhe uns magros escudos - pois se é tão ordinária a nossa fruta, que é que havia de dar... Vendida a fruta, ela ali ficou; tinha feito uma grande caminhada, estava exausta; e então, da pequena alcofa que tem ao lado, tirou um naco de de broa, um bocado de toucinho, e ali almoçou alheada do movimento e da gente que, em sua volta mercadejava. No momento que a objectiva a apanhou, a velha lavradeira, olhou o fotógrafo, certamente surpreendida com tão inesperado ato. Ao seu lado, um garoto melancólico e filósofo, estava, sonolento e feliz, aurindo o sol. E a velha lavradeira, também alheada e talvez também sonolenta, completava ali um quadro ocasional e comum, mas nem por isso despido desse sentido dramático que têm todas as vidas apagadas, restritas, sofredoras e anónimas."Idioma/Escrita:PortuguêsCódigo de Referência:PT/MVCT-AMVCT/APSS/SC/3-1/1/3/24